enquanto pegava os pratos sujos na sala e os levava pra pia da cozinha, algo nas flores desenhadas na toalha trouxe aquele aperto conhecido na garganta. aperto que fazia com que as palavras exatas pra explicar tão estranha associação não pudessem ser articuladas pela boca, mas antes se equilibrassem dentro das pálpebras, em lágrimas que hesitavam antes de escorrer num choro que não podia mais existir. o que ela sentia não podia ser compartilhado, instantaneamente enchendo a sala de água e a transformando em ilha, náufraga de si mesma.
a esperança necessária para continuar acordando dormindo acordando com certa alegria e leveza ela encontrava na brevidade de tais sensações. já não mergulhava tão fundo; entendera que para viver bem não podia se entregar tanto assim. a importância da moderação ela aprendeu a duras penas, e ainda hoje era difícil ceder antes à sensatez que à impulsividade – tudo nela resistia ao equilíbrio. ainda sonhava com uma felicidade intensa, plena, sem reservas, se deixando levar por memórias que achava que fossem suas mas que agora não lhe pertenciam mais. quando menos esperava, um vento forte a varria para longe, e ela tentava se agarrar com tudo o que tinha a folhas de árvores, páginas de calendários, letras de música. ficava triste por não se surpreender ao abrir as mãos e encontrá-las vazias, e então as usava para cobrir o rosto, abaixando a cabeça. não demorava muito para que a realidade se espalhasse como um formigamento, forçando-a a abrir os olhos e a sentir o cheiro de folhas frescas entre os dedos e o ar da chuva prestes a cair.