quarta-feira, 22 de abril de 2009

but when they're parking their cars on your chest
you've still got a view of the summer sky 
to make it hurt twice when your restless body 
caves to its whims
and suddenly struggles to take flight.

(the shins - know your onion! - uma das minhas letras preferidas no mundo todinho. colocaria ela inteira se não fosse chato colocar letras inteiras em blogs.)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

until gravity feels sorry for you, and lets you go

pode parecer que não, mas foi tudo se desfazendo aos poucos. o grão de areia que ficou preso na ampulheta obstruindo a passagem do tempo deu lugar ao conhecido fluxo de grãos, até o momento de virar de ponta-cabeça mais uma vez e fazer tudo começar de novo. foi pensando assim que ela decidiu dar o último gole no café e pegar o trem na direção oposta. acelerou o passo, como se no trocar de pernas pudesse jogar para longe com mais vontade a areia que até então as encobriam. era nítido o esforço que fazia; se prestassem atenção, mesmo com a estação lotada àquela hora, qualquer um perceberia que ela se movia tal qual uma nadadora em areias movediças -- cada passo, um pedaço de vida que impedia de submergir.

nada aconteceu de repente, repito. quando enfim chegou ao outro lado da cidade, sacudiu os últimos grãos que ainda enchiam seus bolsos e sentiu a gravidade pesar menos em seus ombros, embora seus pés ainda marcassem o chão ao andar. entrou na primeira e mais alta construção que viu, subiu andar por andar sentindo o corpo ficar mais leve a cada degrau. ao chegar ao topo, notou que flutuava, os pés a alguns centímetros do chão. não conteve um sorriso nessa hora. arregalou os olhos como se assim pudesse ver com mais precisão a distância que a separava do teto do prédio. bobagem, pensou, a estas alturas, que diferença faz? sentiu o peito encher-se de alívio enquanto o vento a carregava, fechando os olhos que não ousariam mais se abrir.


[andrew bird - armchairs]

segunda-feira, 30 de março de 2009


ê interseçãozinha difícil essa. 

segunda-feira, 16 de março de 2009

i'm too tired to maintain that i'm slow

É aquele nó na garganta, o aperto no peito. Não mais uma reação ao que não se esperava, mas exatamente àquilo que de tão conhecido angustia, que faz querer correr e correr até não ter mais forças só para provar para si mesmo que se tentou fugir ou lutar -- só para externalizar o que já se pensou tanto. E eu me armo, inflo os pulmões com uma respiração concentrada e ansiosa, esperando pelo tiro de largada que nunca vem. Mal dou meu primeiro passo e congelo. Há tanto ainda que me impede de correr como antes. Mesmo quando ando, mal percebo a mudança no cenário. Há uma falta que deixa tudo sempre igual, que faz a corrida parecer inútil, e que (segredo) me faz ter desprezo, caminhar a passos mecânicos, porque tudo tanto faz.

Até vir o nó, até vir o aperto. Sem perceber, respiro fundo. E espero pelo tiro de largada mais uma vez.



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[update: guster, empire state ---- começo aqui uma série de posts inspirados em trechos/melodias de músicas que gosto muito. claro que não se pode esperar nenhuma frequência/coerência vindo desse blog, mas essa é a idéia]

quinta-feira, 5 de março de 2009

um dia, uma sala

A sala não era muito confortável. Lá na frente, a professora falava e falava várias coisas que ela já sabia de cor, mas que ainda assim errava, então o correto era permanecer. Se incomodava com afirmações generalistas e simplórias, ideologismos mal disfarçados, mas permanecia. Do lado, uma conhecida. Figura constante em vidas anteriores, poderia até ter sido uma antagonista em infâncias, adolescências, mas não chegara a tanto. Presença forte, porém distante; uma espécie de referência. Parecia decidida, firme, ativa (não-espectadora), tudo o que ela na sua crônica insegurança não alcançaria e que sabia que ia precisar e sofrer por não ter por muito tempo, por não ser. Tinha apenas sete anos quando primeiro se deu conta disso. Ainda hoje, ambas adultas, olhava para a outra em busca de alguma aprovação e empatia nas poucas palavras que trocavam em horas de silêncio. Reencontraram-se por obra do acaso, não do destino. Não havia nada que poderiam de fato aprender ali. E deixavam a sala, quase esquecendo de se despedir.

Mas as diferenças com quem se sentava ao lado já não ocupavam sua cabeça como antes. Nada realmente ocupava, há que se dizer a verdade. Olhou pras janelas fechadas e sentiu o frio do ar condicionado, interessante isso de fechar as janelas pra não entrar calor. Olhou para os pés e pensou em como suas unhas ficavam arroxeadas depressa, bastava esfriar um pouco. Passava o dia pensando em irrelevâncias assim. Isso quando não simplesmente se sentava e se deixava estar, pensamento vagueando a esmo, incapaz de se mover, de terminar a ação de tirar o casaco, de buscar um copo d'água. Deixava o dia, quase esquecendo de apagar a luz, fechar os olhos e dormir.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

tic-tac

Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.
(Caio Fernando Abreu)

e nessas horas a vida parece um grande relógio em contagem regressiva. e ela é, afinal.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Now I’m quietly waiting for the catastrophe of my personality to seem beautiful again


Now I'm quietly waiting for
the catastrophe of my personality 
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.

The country is gray and 
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just gray.

It may be the coldest day of
the year, what does he think of 
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.
- Trecho do poema Mayakovsky de Frank O'Hara (In: Meditations in an Emergency)

don draper salvando meus dias. thanks, mad men.