sexta-feira, 26 de setembro de 2008
atropelo
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
someday you'll be old enough to start reading fairy tales again
Where nobody gets old and godly and grave,
Where nobody gets old and crafty and wise,
Where nobody gets old and bitter of tongue.
The Land of Heart's Desire
Algumas pessoas lhe perguntavam o que tinha acontecido, por que tinha mudado, assim, de uma hora pra outra. Não sentia nenhuma preocupação genuína vindo dessas perguntas, apenas educação. Gentileza, sim, tinha um quê de gentileza no tom das perguntas. Um quê de piedade, também. Ele abaixava a cabeça, as bochechas um tanto vermelhas, e voltava a levantar, ainda com o mesmo sorriso amigável. Sabia que não havia ainda se tornado alvo de grandes especulações ou curiosidades, e isso o confortava.
Sempre tem alguma verdade que a gente nunca conta. A dele era que ele sabia o momento preciso em que haviam embrulhado a sua inocência com papel celofane e mandado para a Terra do Nunca. Mas saber não quer dizer entender, e ao tentar entender, ele revirou todos os cantos e labirintos dentro dele e não viu nenhuma luz de vagalume, nenhuma lagarta virar borboleta, nenhum bilhete com senha secreta. Parou de acreditar em fadas, e todas aquelas que o vigiavam, escondidas em olhares e canções e surpresas e bolos e pirulitos e balanços e em lápis de cores e rabiscos, disseram adeus.
sábado, 16 de agosto de 2008
Sempre tinha uma pia cheia de louças. Uns lençóis para serem dobrados. Um corredor para varrer. Não deixavam mais ela lavar os copos de cristal desde que ela ficou andando pelo hotel com um na frente dos olhos "Olha, olha, fica tudo diferente com isso na frente. É bonito". Tiveram que consertar algumas maçanetas douradas que ela tentou arrancar porque eram bonitas. Tiveram que ensinar que nem tudo que é bonito ela podia ter, e que achar as coisas bonitas o tempo todo era estranho. Ela ouvia isso mas não entendia muito bem. Pra quê se preocupar quando se podia admirar as toalhas coloridas guardadas enroladinhas uma atrás da outra, ou observar as pessoas conversando entre si com expressões comedidas e gestos educados, se levando tão a sério, apertando as mãos?
Teve uma só vez, uma única vez, em que ela quis sair dali correndo. E como não tinha nada a perder, obedeceu ao impulso. Enquanto corria, as casas e árvores em borrões ao seu redor ficaram mais interessantes que jamais foram quando paradas. E tinha o coração, que acelerava e batia tão depressa como ela nunca havia sentido. O chão sumia depressa, os paralelepípedos corriam à toda na direção oposta. E ela descobriu que podia fazer vento, vento que agitava os cabelos desbotados e secava o suor, inventando frescor. Não fosse o cansaço e o despreparo das pernas, ela sentiu, com uma pontada de tristeza, que poderia correr para sempre.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
on/off
sábado, 19 de julho de 2008
recognoscere
Ele se sentou ao pé da porta e lá ficou. Não sabia dizer quanto tempo teria se passado desde a última vez que sentira aquele cheiro fresco de frutas. Era bom ficar ali, debaixo daquela semi-sombra permeada por raios quentes de sol. Olhou para a rua, para a calçada, chegando nos pés e na sua própria sombra que se misturava à sombra ralinha da árvore. Não era uma posição muito confortável, aquela. Podia sentir a calça travando nos joelhos, um braço do paletó que segurava no colo se arrastava no chão. Ele sabia que não precisava ficar ali pra sentir o cheiro das frutas – afinal, o cheiro vinha da sacola de plástico recheada de laranjas, tangerinas, mangas e goiabas que ele tinha acabado de comprar, e a menos que ele quisesse abandonar as frutas pelo caminho, o aroma cítrico o seguiria até a cesta de frutas da cozinha. Mas aquele cheiro pertencia àquele lugar. Não conhecia aquela casa, não tinha nenhuma lembrança relacionada à combinação cheiro de frutas + se sentar desajeitadamente onde quer que fosse. Só pareceu certo assim.
Deixou o desconforto se acumular até que não fosse mais suportável e se ergueu novamente sobre as pernas. Olhou para cima, o sol já estava a pino. Sentiu aquela cegueira momentânea e viu os mini-sóis gravados em seus olhos se refletirem na sacola, no paletó, na calçada, até se apagarem de vez. Pulava as linhas do calçamento e chutava uma e outra pedrinha ou tampa de garrafa reproduzindo um gesto automático adquirido na infância e esquecido por anos. Procurou o chiclete no bolso da calça e deu falta das chaves de casa. Não se sentiu aborrecido por ter esquecido suas coisas no escritório. Isso lhe daria a oportunidade de fazer o mesmo caminho de novo – não se sentaria debaixo da sombra, não teria os mesmos pensamentos e não sentiria o que sentiu, mas ao cheiro das frutas se juntaria o perfume da memória fresca. Ele sabia que, ao passar ali pela segunda vez, se sentiria menos sozinho. Aquele lugar agora o conhecia também.
sábado, 12 de julho de 2008
desalinho
num dia em que tudo parecia ter despertado para lhe incomodar, ela buscou o aconchego de uma música cantada baixinho. buscou uma daquelas melodias antigas, que já tocaram tanto e que tempos atrás faziam tanto sentido, faziam tanto parte. era fácil se lembrar. mas carros buzinavam, vendedores gritavam e insistiam em colocar um panfleto nas suas mãos. a vida era interrupção.
durante todo o dia, olhou pros sapatos e lembrou da bagunça que deixou em casa. precisava arrumar aquela gaveta quebrada. colocar aquelas almofadas no sol. ler aquele livro encostado. suspirar e olhar pro teto.
domingo, 22 de junho de 2008
enquanto a chuva não cai
tem poeira agora. a cidade está quase toda coberta por ela: nos cantos da casa onde o espanador não alcança, entre os cds empilhados nas prateleiras, se juntando àquela poeira já envelhecida dos livros guardados. tem poeira nas folhas persistentes das árvores, nos galhos que já estão nus, cobrindo a grama ressequida. o verde parece voluntariamente se esconder.
por mais que se tente, não é fácil se livrar da poeira nesses dias. o corpo reage, espirra, tenta expulsar com suas reações mais instintivas a poeira que se infiltra pulmão adentro. não é fácil. alguns grãos, de tão pequenos, atravessam pele, sangue, alma, se perdem de tal maneira que é difícil acreditar que de fato existiram. que ainda existem.
às vezes o céu amanhece branco. neblina paira pela cidade marrom-amarelada, e o azul foge para junto do verde. mas neblina não é nuvem, e logo o azul volta, vibrante, na forma de um céu de meio-dia implacável. lábios, cotovelos, calcanhares, tudo sucumbe ao jogo do vento-frio, sol-escaldante. a claridade é tanta que as pupilas se contraem quase a ponto de não permitir que os olhos enxerguem. nesses dias, a realidade é outra.
não há muito o que esperar até a próxima chuva além da própria chuva. enquanto o ar não traz o frescor úmido de um céu carregado após um dia quente, há o mormaço e as noites frias. olhar para cima não vai fazer com que as primeiras e redentoras gotas se desprendam das nuvens mirradas. mas, com alguma sorte, é possível assistir ao balé dourado das partículas de poeira contra um feixe de luz, ou a uma lua risonha. sem a chuva para entrar, basta abrir a janela.
